Como anda a Shonen Jump? (Fevereiro de 2026): Vendas, mudanças e maldições
Os mangás e animes dominaram o mundo. E isso está longe de ser um problema, claro. Na atual década de 2020, a cultura pop japonesa está em seu auge e praticamente todo mundo tem a sua obra favorita que mora no coração e não paga aluguel. Acontece que existem grandes chances dessa obra vir da revista Weekly Shonen Jump.
A maioria dos animes é adaptação de mangás de sucesso, que por sua vez tem seus capítulos publicados em grandes revistas (que podem ser semanais, mensais, bimensais, etc) antes de serem compilados em volume próprios. Neste contexto, a Weekly Shonen Jump é a principal revista de mangás do mundo, sendo o lar de sucessos geracionais como One Piece, Dragon Ball, Slam Dunk, Jujutsu Kaisen, Naruto, Demon Slayer, Bleach, My Hero Academia e muitos outros.
Contudo, já fazem alguns anos que a revista deixou a sua segunda era de ouro. Em 2019 eu escrevi um artigo com o mesmo objetivo desse e o mundo era um lugar muito diferente (tanto com relação à mangás quanto em outros aspectos). Hoje eu convido você, caro leitor, a me acompanhar nessa jornada para entender a situação daquela que é a mais bem sucedida antologia de mangás da história, a Weekly Shonen Jump.
Por onde começamos?
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| 1968 x 2026 |
Ao mesmo tempo, outras obras populares continuavam mantendo a revista forte e no topo do mercado de mangás. Acontece que a situação mudou drasticamente com o encerramento de todas essas séries, algumas em pouco espaço de tempo, e a falta de reposições que tivessem o mesmo apelo com o mercado. Atualmente a Shonen Jump ainda possui mangás de sucesso, mas nenhum deles está no mesmo nível que os que foram concluídos durante essa última década.
Vale dizer que a Shonen Jump passa muito longe de estar com problemas financeiros como empresa, muitas de suas séries de sucesso podem ter sido encerradas na revista, mas são projetos multimídia que seguem gerando grande lucro para a editora dona da antologia, a Shueisha. Então esse texto não é nenhum tipo de "PERDEU TUDO!" é só uma análise das obras da revista e da atual situação do mercado de mangás. Falando nisso...
O mercado de mangás
Primeiramente, a marca Jump vai muito além da popular revista shonen semanal: na verdade essa é uma longa linha de revistas antológicas, com publicações para a demografia seinen (Weekly Young Jump, Grand Jump e Ultra Jump, por exemplo), outras revistas shonen (como a mensal Jump SQ), para crianças (Saikyo Jump) e, claro, uma plataforma focada especialmente no lançamento de mangás digitais, a Shonen Jump+.
Ao lado da revista semanal, a Shonen Jump+ é o braço mais forte dessa poderosa marca nos últimos anos, sendo a plataforma digital responsável por grandes mangás como DanDaDan, Spy X Family, Kaiju Nº8, Chainsaw Man (parte 2) e vários outros. A plataforma é gratuita e traz atualizações constantes, mostrando como o mercado se fortaleceu em alguns aspectos enquanto enfraqueceu em outros.
Mas esse não é um texto sobre a Shonen Jump+ ou mangás digitais! A Weekly Shonen Jump e seus mangás também são publicados como e-book, mas as publicações físicas são o principal foco. Neste caso, as vendas de mangás físicas no Japão estão caindo como um todo, tanto para as antologias quanto para volumes encadernados. Algumas séries ainda conseguem atingir grandes números de vendas, principalmente com o lançamento de volumes físicos, mas é seguro assumir que boa parte das vendas de mangás atualmente no Japão é digital.
Quando eu fiz aquela matéria sobre a situação da Weekly Shonen Jump em 2019, estávamos apenas alguns meses de distância do grande fenômeno cultural que o anime de Demon Slayer causou. Ninguém esperava um evento daquela magnitude em um mercado que já demonstrava estar caminhando para a diminuição das vendas físicas. Depois de Demon Slayer veio Jujutsu Kaisen e outros títulos que ajudaram a criar um período sem precedentes para o mercado de mangás no Japão, com diversos recordes sendo quebrados anualmente.
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| Os mangás mais vendidos entre 2020 e 2025 no Japão. Os três primeiros colocados são obras da Weekly Shonen Jump. |
Como eu disse anteriormente, a Shonen Jump tá longe de estar mal das pernas. Ela acabou de passar por um momento onde seus mangás se tornaram fenômenos culturais históricos e suas franquias multimídia se consolidaram por todo o mundo. Acontece que é isso, o momento passou e é preciso seguir em frente.
Problemas atuais da Shonen Jump
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| Sakamoto Days e Blue Box |
No momento, as séries mais populares da Shonen Jump são: One Piece, Hunter x Hunter, Blue Box, Sakamoto Days e Kagurabachi. Entre esses, One Piece é o rei dos mangás e está em sua épica fase final que deve durar mais alguns bons anos (a cada 5 anos faltam 5 anos para o fim de One Piece). Por sua vez, Hunter x Hunter tem uma publicação extremamente irregular, entrando em um novo hiato que pode durar anos após a publicação de 10 capítulos.
Para a Shonen Jump, é preciso que seus mangás tenham a capacidade de vender ao menos algumas dezenas de milhares de cópias por volume e que os autores consigam publicar capítulos regularmente na revista. Tenha em mente que ser um autor em uma revista semanal é uma tarefa extremamente difícil: são em média 19 páginas por semana, durante todo o ano, com pouquíssimas pausas.
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| Página inacada de Kagurabachi que foi publicada na Shonen Jump recentemente. Rascunhos e capítulos com menos páginas acontecem quando os autores tem dificuldade de entregar o trabalho da semana. |
Os outros sucessos atuais da revista, Blue Box e Sakamoto Days, são obras que vendem bem, mas que não chegam nem perto de ocupar a posição de Jujutsu Kaisen e My Hero Academia (as duas últimas grandes obras que deixaram a revista). Se essa situação já é complicada, a coisa promete piorar: tanto Sakamoto Days quanto Blue Box devem ser encerrados em 2026.
A duração de uma obra semanal varia de acordo com diferentes fatores, sendo que, no caso dos sucessos, a vontade e planejamento do autor tem um grande peso atualmente (mas nem sempre foi assim...). Algumas obras semanais como Gintama, Naruto e Bleach duraram por mais de 70 volumes e ajudaram a Jump a expandir seu poder e relevância durante o período de sua publicação. Todavia, os mangás durarem tanto tempo que é a exceção e não a regra.
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| Demon Slayer vendeu mais de 220 milhões de unidades em apenas 23 volumes. As únicas séries da Shonen Jump que com números maiores são One Piece, Dragon Ball e Naruto. |
Normalmente, mangás com capítulos semanais duram em média de 4 a 7 anos, com alguns casos de sucesso (e muito esforço) acontecendo com alguma frequência. Nesse cenário, a Shonen Jump perdeu obras de sucesso que duraram mais de 70 volumes e as substituiu por sucessos que permaneceram em suas páginas por menos da metade do tempo, como Demon Slayer e Jujutsu Kaisen.
A maldição dos mangás de esporte
Um ponto curioso quanto à busca por sucessos da Shonen Jump passa pelos mangás de esporte, os spokon. Essa categoria de mangás sempre foi muito popular na demografia shonen como um todo, com destaque para obras da própria Jump como Captain Tsubasa, Slam Dunk, Kuroko no Basket e Haikyu!!. Acontece que após o lançamento desse último, a Weekly Shonen Jump praticamente não conseguiu lançar spokons de sucesso.
A única obra de esporte que conseguiu se sair bem na revista depois do lançamento de Haikyu!! foi Hinomaru Sumo, um mangá de sumô que contava com um grande apoio editorial e chegou a receber um anime, mas que não impressionava nas vendas. Houveram diversas tentativas todos os anos e, desde o fim de Haikyuu em 2020, a Shonen Jump segue sem encontrar qualquer spokon que ajude a trazer variedade e bons números para a revista.
Não é apenas a revista semanal da Shueisha que sofre com a falta de spokons de sucesso, pois esse tipo de obra não tem conseguido sucesso em revistas concorrentes da mesma demografia também. A Weekly Shonen Magazine (editora Kodansha), principal rival da Shonen Jump, fugiu do padrão e encontrou sucesso com Blue Lock, um mangá bem diferentão que mistura futebol com um jogo de sobrevivência. Contudo, esse é o maior spokon dos últimos 10 anos na demografia shonen como um todo.
Reforços da concorrência
Além da dificuldade em encontrar mangás de esporte que atraiam o público, a Weekly Shonen Jump também está em uma fase onde poucas séries com potencial de crescimento surgem, mesmo estreando entre 10 e 13 novos mangás anualmente. Isso faz com que a revista que está vendo seus sucessos terminarem um a um procure por soluções fora do usual.
Uma alternativa que a Jump tentou nos últimos anos foi trazer autores de sucesso de suas concorrentes para tentarem a sorte na maior revista do mercado. Ken Wakui, autor de Tokyo Revengers (Shonen Magazine), lançou Astro Royale, mas a série não foi capaz de se destacar o suficiente para ter um encerramento natural e acabou cancelada precocemente.
Autores populares da Shonen Jump+, Yuji Kaku (Hell's Paradise) e Taizan 5 (Takopi's Original Sin) pularam para a irmã da plataforma e encontraram apenas decepção. Kaku lançou Ayashamon, que, apesar de ter chamado a atenção dos fãs ocidentais, acabou com apenas 3 volumes compilados. Já Taizan 5, popular pela minissérie Taokpi's Original Sin, viu seu mangá The Ichinose Family’s Deadly Sin começar vendendo bem, mas perder mais leitores a cada volume e terminar cancelada com 1 ano de publicação.
Por sua vez, a autora de Welcome to Demon School, Iruma-kun! (Weekly Shonen Champion), Osamu Nishi, teve mais sucesso ao se juntar a Shiro Usazaki (desenhista de Act-Age) para lançar Ichi The Witch em 2024… Uma constante na Weekly Shonen Jump é que apesar de fases ruins na história da revista, sempre surge esperança em lugares inusitados.
Novos sucessos
Entretanto, esse modelo funcionou no passado e continua entregando novas obras com grande potencial de tempos em tempos. O principal exemplo atualmente é o shonen de batalhas Kagurabachi, que mal completou 2 anos e já vende mais de 150 mil unidades por volume novo apenas no mês de lançamento. Kagurabachi é a grande esperança da Jump para os próximos anos e logo deve ter um anime anunciado.
Outra obra de destaque na revista é Ichi The Witch, que também é uma obra com foco na ação e que conseguiu chamar a atenção dos leitores desde o começo. A Shonen Jump já está promovendo ambas as séries juntas pensando sempre no futuro da revista. Tanto Kagurabachi (2023) quanto Ichi The Witch (2024) tem o potencial de furar a bolha e se tornarem o "próximo Jujutsu Kaisen".
O real problema é que as novas séries de sucesso estão aparecendo com menor frequência e com uma grande distância de tempo entre uma e outra. Felizmente, a revista encontrou mais um novo sucesso em 2025, a comédia romântica cheia de personalidade Someone Hertz. Ainda é cedo para entendermos onde essa obra pode chegar, mas o começo foi muito animador e o mangá já recebe bastante destaque na revista.
A Weekly Shonen Jump não publica apenas grandes sucessos, ou seja, mangás de sucesso moderado também são essenciais para que a revista continue saudável. Além disso, é fundamental que exista uma boa variedade de gêneros e temas para que mais leitores possam ser alcançados (é aí que a maldição dos mangás de esporte mais pesa). Embora possua uma line up interessante, os mangás que ocupam essa função na Jump também vendem bem menos nos dias de hoje do que alguns anos atrás.
Porém, a situação sempre pode mudar e um mangá intermediário pode se tornar um grande sucesso. Uma das principais apostas da Jump para 2026 é Akane-banashi, um mangá diferentão sobre a tradicional arte do rakugo, que vai ganhar seu anime em abril. Ter séries que fogem do padrão e atraem mais leitores é fundamental e Akane-banashi é um excelente exemplo.
Outros mangás que não são tão populares mas ajudam a manter a Shonen Jump diversa e interessante é a obra de ação /harém Nue's exorcist, a comédia romântica Hima-Ten!, e outras duas séries de batalha, Ultimate Exorcist Kyoshi e Shinobi Undercover. A revista está em suas fases mais fortes quando conta com variedade e qualidade, por isso é importante que os editores sempre apostem em mangás com premissas e temáticas únicas.
Velhos conhecidos
Além das novidades de sempre, a Weekly Shonen Jump ainda pode contar com One Piece, que no próximo ano vai comemorar 30 anos. A história pode estar se encaminhando para o fim, mas o mangá segue gigante ao redor de todo o mundo, sendo a obra que mais vendeu em 2025, por exemplo (a obra de Eiichiro Oda também dominou a lista de séries mais vendidas entre 2009 e 2019, 10 anos consecutivos!). Hoje em dia o mangá faz mais pausas, o que é totalmente compreensível por sua duração e o fato de que seu autor está envelhecendo, mas segue como o maior dos pilares da revista.
Como já dito anteriormente, Hunter x Hunter é publicado de forma irregular na Jump, com a série saindo sempre que Yoshihiro Togashi consegue completar 10 capítulos (número necessário para lançar 1 volume compilado). Togashi tem problemas de saúde sérios e constantes, agravados pela rotina de autor de mangás, mas ele continua com a publicação como pode.
Outro rosto conhecido na atual line up da revista é o de Gege Akutami, que está escrevendo uma sequência para sua grande obra, Jujutsu Kaisen Modulo. Dessa vez Akutami confiou os deveres nas ilustrações para Yuuji Iwasaki (Cipher Academy). Vale destacar que o próprio Gege Akutami passou por problemas de saúde quando serializava a série original. Oficialmente, Jujutsu Kaisen Modulo é uma minissérie que deve durar entre 3 e 4 volumes, mas a expectativa dos fãs (e imagino que dos editores) é que o autor mude de ideia e transforme a história em uma nova série regular de sucesso.
Na Shonen Jump ainda é possível encontrar o mangá de fantasia e comédia romântica Witch Watch, que já ganhou seu anime e ajuda na variedade da revista. Por sua vez, Me and Roboco é uma comédia do tipo mais tradicional, cheia de paródias e que agrada leitores de todas as idades. Essa obra também já recebeu um anime e, apesar de não vender especialmente bem, tem o carinho dos leitores da revista.
Já Sakamoto days e Blue box são dois sucessos de público que receberam animes, contribuem significativamente para atrair leitores para a revista e que estão se encaminhando para o final. Não é possível dizer quando as séries vão acabar, mas elas devem continuar gerando novos conteúdos para a Shonen Jump por um bom tempo. Além de novas temporadas de seus animes de sucesso, Sakamoto Days ganhará uma adaptação em live-action ainda esse ano.
O futuro da Weekly Shonen Jump
A verdade é que, mesmo entre trancos e barrancos, a maior revista de mangás do mundo já tem obras com potencial para se tornarem grandes sucessos multimídia em todo o planeta. A capacidade de se reinventar, inovar e a brutalidade na hora de cancelar o que não está funcionando para tentar de novo continuam se mostrando a grande força de uma Shonen Jump cada vez mais icônica.
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Links úteis:
- A Jump Database reúne capas, páginas coloridas, informações e muito mais sobre a Weekly Shonen Jump e outras revistas;
- Por mais que não seja sempre agradável, o Reddit da Weekly Shonen Jump é um bom lugar para ficar por dentro das notícias.
- No Manga Plus é possível acompanhar as séries atuais da Shonen Jump oficialmente, sem pagar nada;
- O Analyse It segue sendo um blog excelente sobre revistas de mangás e o mercado dos mesmos, tenho gostado muito de acompanhar as reviews das TOCs da Weekly Shonen Magazine.
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Escrito por Thiago Almeida.














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