Review: Adult Swim's The Elephant

Nos dias de hoje é cada vez mais incomum vermos projetos experimentais sendo produzidos por grandes estúdios. Entretanto, o Adult Swim é um dos poucos que segue comprometido em colocar a criatividade acima de qualquer outro fim e, com The Elephant, eles foram ainda mais além. 

The Elephant é um projeto extremamente experimental  idealizado por criadores de quatro séries de grande sucesso do Cartoon Network: Pendleton Ward (Hora de Aventura), Ian Jones-Quartey (OK KO), Rebecca Sugar (Steven Universo) e Patrick McHale (O Segredo Além do Jardim) se juntaram para produzir um especial pra lá de bizarro, criativo e filosófico. 

Vou fazer uma análise sobre essa iniciativa muito intrigante do Adult Sim, mas antes vou passar pelos bastidores. Contudo, tenha em mente que haverão spoilers, pois seria impossível analisar The Elephant de outra forma. Então, todos avisados, vamos começar!

O espírito da coisa

The Elephant e seu making of estão disponíveis na HBO Max.

O Adult Swim divulgou um making of com a mesma duração do especial, onde fica claro como funcionou esse experimento em animação. Primeiramente, a ideia partiu da brincadeira do "cadáver esquisito": nesse jogo, é preciso dobrar um papel em 3 partes e 3 pessoas diferentes vão desenhar partes distintas do corpo de um personagem sem ver as partes que vieram antes. Assim, uma pessoa desenha a cabeça, a outra o torso e a última as pernas. 

A ideia de The Elephant é fazer um especial animado nesse estilo, com Pendleton Ward sendo o responsável pelo primeiro ato, Rebecca Sugar e Ian Jones-Quartey pelo segundo e Patrick McHale ficando com o último ato. Sim, isso poderia ter dado muito errado (ou muito certo!). Para manter as coisas minimamente nos trilhos, Kent Osborne e Jack Pendarvis (nomes conhecidos dos fãs de Hora de Aventura) tiveram a função de mestres do jogo. 

Cada criador e suas respectivas equipes desenvolveram seu ato como um curta próprio que faria parte de algo maior, mas que eles não tinham noção do que era. O papel dos mestres do jogo era justamente garantir que existisse uma coerência que tornasse a experiência palatável para os espectadores no fim do dia.

Os criadores tiveram toda a liberdade para escolherem suas próprias equipes, com estúdios de animação, diretores, artistas de storyboards, compositores próprios para seu ato. Isso ajudou com que cada parte da história refletisse o estilo e a personalidade de seus idealizadores de forma ainda mais forte. Para definir os/o protagonista(s) de The Elephant, Ward, Sugar, Jones-Quartey e McHale fizeram três corpos esquisitos e cada um escolheu um. 

Não foram estabelecidas muitas regras quanto a narrativa, sendo a única fundamental que o personagem principal deveria morrer no fim de cada curta. A partir desse ponto, cada um dos criadores pode desenvolver seus curtas com toda a liberdade criativa que apenas o Adult Swim consegue oferecer nos dias de hoje

A cabeça


Pendleton Ward, criador de Hora de Aventura e The Midnight Gospel, foi quem idealizou o primeiro ato de The Elephant. Nos últimos anos Pen tem trabalhado em projetos peculiares e experimentais, se afastando de sua criação de grande sucesso, Hora de Aventura (Adam Muto é o responsável pela franquia hoje em dia)

A primeira parte desse especial é diferente de tudo o que você verá sendo feito em animações mainstream. Profundamente experimental, a história contada nesse segmento acompanha uma criatura que acabou de nascer e que começa a se questionar sobre sua identidade e natureza enquanto é perseguida em um mundo retro futurista cheio de cores, formas bizarras e ação. 

O que vemos nesse primeiro ato é uma trama pouca conexa, com diálogos intrigantes e jogados, que o espectador deve se esforçar para pescar e relacionar com o que está acontecendo em tela. Apesar disso, o curta nunca para, sendo quase 100% uma perseguição que explora as linhas, cores e ângulos de maneira corajosa e impressionante. 

É um começo bem desorientador para a coisa toda, mas que vai agradar principalmente os fãs de animação experimental. Pendleton Ward dedicou seu tempo para projetos nessa linha e aqui ele está claramente se divertindo com as possibilidades de contar uma história onde tanto ele quanto os espectadores não sabem o que acontecerá a seguir. 

O Tronco


Quanto à segunda parte desse projeto tão autoral, os responsáveis por conectar começo e fim foram Ian Jones-Quartey e Rebecca Sugar, um belo casal que trabalha muito bem juntos. Ambos estão envolvidos em diversos projetos diferentes e compartilham uma grande paixão por animação, com certeza veremos seus nomes frequentemente nos próximos anos (filme do Moomin, Lars of The Stars e o filme de Hora de Aventura são alguns dos projetos em que estão envolvidos. O Ian comentou algo sobre uma reunião com a Disney Television Animation também). 

Essa parte do especial é bastante diferente da anterior, como era de se esperar. No making of, Ian e Rebecca falaram sobre como não sabiam o que esperar dos outros idealizadores mas, os conhecendo bem, tinham uma noção do que não esperar: por essa razão eles escolheram como ambientação a cena punk do final dos anos 80 em Nova York. 

Para os visuais, o estilo remete às animações da primeira década do anos 2000, com traço pontudo, quadrado e excelente uso das cores. O design dos personagens casa muito bem com a proposta menos experimental dessa parte, que foca em questionamentos e traz uma narrativa filosófica sobre propósito, escapismo e identidade. O uso da música também é muito forte nesse segmento, com o botão musical servindo como uma espécie de fuga da realidade para os personagens. 

Ao buscar por pistas sobre sua identidade, nosso protagonista encontra dor, reflexão e renascimento em uma bela sequência final, que termina em morte (como a proposta define). O ritmo desse ato de The Elephant desacelera com relação ao segundo, entretanto, segue bastante intenso e faz um bom trabalho em começar a preparar a conclusão que Rebecca e Ian nem imaginavam qual seria...

As pernas

Quando chegamos ao último segmento desse grande experimento que é O Elefante, é natural esperar algum tipo de conclusão. E Patrick McHale entendeu muito bem sua missão, mesmo não tendo ideia do que aconteceu nos últimos dois atos. Para começar, é preciso destacar que McHale é um grande escritor de diálogos e que consegue transmitir seus temas de forma muito potente. 

A partir da premissa de morte e renascimento, somos apresentados a mais algumas mortes do personagem que viemos acompanhando até aqui. A ideia geral desse último ato parece ser amarrar o que aconteceu até então em O Elefante e presentear os espectadores com um significado. Não acho que isso era necessário, mas Patrick McHale definitivamente conseguiu. 

Em certo ponto de seu ciclo de vida e morte, nossa personagem reencarna no corpo de um robô de suporte que um inventor pouco habilidoso acabou de criar. A protagonista já está cansada desse ciclo sem fim e só quer encontrar um final para sua confusa existência, mas aceita passar um tempo com o inventor. 

Essa terceira parte traz uma grande sensibilidade e consegue emocionar rapidamente graças aos seus excelentes diálogos, que ajudam a construir uma química impressionante entre o enventor e sua robô assistente. No fim das contas, a conclusão puxa os temas de escapismo, identidade e mortalidade para entregar um segmento belíssimo sobre aceitar a vida e o ato de viver. 

Há uma cena perto do fim onde entidades constroem um cadáver esquisito em forma de elefante e ele fica perfeito. Que jeito bonito de olhar a vida e seus acontecimentos que, por mais que muitas vezes pareçam confusos e imperfeitos, acabam fazendo sentido no fim! Já a cena final... PATRICK MCHALE, MEU CHAPA... é, eu quase caí da cadeira. Porém, fui surpreendido positivamente uma última vez. 

Com relação às qualidades técnicas dessa conclusão, há uma grande variedade de estilos artísticos que funcionam perfeitamente com a proposta narrativa. O uso de música aqui, com o retorno da The Blasting Company, que trabalhou em O Segredo Além do Jardim, é incrível e ajuda a tornar essa uma história terna e cheia de significado. 

O Todo 

Todos esses criadores trabalharam em Hora de Aventura, que por sua vez foi um pilar na minha vida por muito tempo, sendo uma série muito importante para  minha pré-adolescência e adolescência. Até os dias de hoje eu sinto a influência dessa obra e dos vários desenhos que foram criados por membros de sua equipe na minha própria arte. O que eu estou tentando dizer é... esses caras são meus heróis. 

Eu fico imensamente feliz em ver Pendleton Ward, Rebecca Sugar, Ian Jones-Quartey e Patrick McHale tendo a oportunidade de serem tão criativos e experimentais como acontece em The Elephant. O Adult Swim, por sua vez, se tornou um espaço de extrema importância para que obras autorais e que fogem do algoritmo possam ser lançadas nos dias de hoje. Sério, vou citar Primal e Smilling Friends que estão frescos na minha memória. Qual outro estúdio aprovaria temporadas dessas séries em 2026? 

The Elephant poderia ter dado muito errado. Mas mesmo assim sua existência como experimento seria totalmente justificada e precisamos de mais projetos assim. Felizmente, esse especial é muito divertido e emocionante, me deixando ainda mais empolgado para continuar acompanhando os novos projetos desses artistas incríveis. 

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Deixo vocês com essa baita música e clipe da carreira musical da Rebecca Sugar (o Ian dirigiu a animação!):


Escrito por Thiago Almeida.

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